Escrever: um desafio e um privilégio

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Texto extraído da revista digital Mulher Criativa – Artigo 20 MULHERES 20 CAUSAS Facebook – https://www.facebook.com/mulher.criativa.3

Nasci na cidade de São Paulo, no Brasil. Há 31 anos, vim para Portugal juntamente com a minha família, como missionária, com o objetivo de servir e apoiar a igreja portuguesa no avanço do Evangelho. Porém, na medida em que fui me envolvendo com o trabalho missionário, percebi o quanto eu tinha para aprender com os portugueses.

Portugal tem sido a minha casa. Aqui liderei e fui liderada, percorri grande parte do meu percurso académico, vi os meus filhos crescerem e desbravarem e aqui tenho aprendido a amar uma nação que não é a minha mas que tem moldado de tantas formas a minha identidade, a minha família, o meu jeito de ser e ver o mundo, o meu português e o meu quotidiano, que hoje posso dizer que Portugal é parte de mim. Sou Pedagoga e Psicóloga Clínica e do Aconselhamento, casada e mãe de três filhos e seis netos.

Escrever, para mim, que foi sempre foi natural e desde menina eu já gostava de brincar com palavras, letras e rimas. Lembro-me de sempre ter boas notas nas composições e redações, nas aulas de português e de dizer que quando eu crescesse iria escrever um livro. Porém, à medida que o tempo foi passando, percebi que só a habilidade com as letras, as técnicas da escrita criativa e a capacidade de esculpir com palavras, não eram o suficiente para um trabalho que trouxesse testemunho, vida, superação e esperança. Era necessário o material mais precioso e ao mesmo tempo mais frágil que conhecemos, feito de barro, mas com um sopro de vida que transforma qualquer habilidade em conteúdo: o ser humano.

Assim, na medida que amadurecia, crescia comigo também a capacidade de lidar com pessoas, compreendê-las, ouvi-las a partir das suas próprias experiências, sem juízos de valor mas numa profunda empatia que me fez escrever as suas histórias.

O primeiro livro publicado foi O Livro de Salema, que conta a experiência de vida de uma personagem fictícia e a sua vivência e a sua conversão numa cultura fechada ao evangelho. Na altura, conheci, ouvi testemunhos e entrevistei mulheres que deram origem à história. Este livro tem como objetivo mostrar que mulheres como Salema são mais do que estatísticas sobre nações distantes. São pessoas, famílias que amam, riem e choram, e pelas quais Jesus morreu por amor.

A seguir veio a História de Sophia (no Brasil), ou Simplesmente Sofia (em Portugal), livro que foi fruto da minha vivência nesta nação e da experiência de lidar com as lutas e vitórias de famílias com quem tive o privilégio de conviver. A narrativa tem como pano de fundo a história mais recente de Portugal desde a revolução dos cravos, o que envolve também a religiosidade e as experiências da personagem Sofia, dentro de um contexto de mudanças e de confronto com a fé e as convicções arraigadas culturalmente.

A partir destas três publicações, surgiu a ideia do blog “Mulheres com História”, que deu origem mais tarde ao primeiro volume do livro com o mesmo nome. A ideia foi publicar histórias curtas de mulheres reais, mas que contam a suas trajetórias de vida, encontros, conversão e superação. As histórias são compostas por um “álbum de retratos” com as fotografias mais recentes revelando não só a beleza que cada sorriso demonstra, mas revelando que, apesar da jornada nem sempre fácil, é possível olhar em frente com esperança e direção.

O último livro é o Pérola. Nasceu a partir do convite de uma amiga, Margarida Ferraz, que me enviou o relato escrito de todos os acontecimentos que viveu durante a sua infância, adolescência e fase adulta e que envolvia abandono, violência doméstica, violação e abuso sexual. Este foi o meu maior desafio! Eu teria que transformar um relato triste e cheio de detalhes pelos quais nenhum ser humano deveria passar, em algo que, apesar da dor, trouxesse a mensagem de esperança, ao mesmo tempo que eu não poderia deixar de narrar a realidade dos factos ocorridos. Pérola já vai na quinta edição e tem sido um sucesso, não só pelo meu trabalho de escrita mas, acima de tudo, pela transformação ocorrida na vida da Margarida e que tem dado origem a um trabalho lindo de apoio às vítimas e de prevenção ao abuso sexual das nossas crianças.

Assim tem sido o meu percurso no que diz respeito à escrita. Já perdi a conta ao número de histórias reais que se tornaram inspiração para mim e, como disse acima, o material humano é o meu melhor instrumento de trabalho e não seria de todo algo real, se eu mesma não estivesse nas entrelinhas das personagens, ou dos poemas (são cerca de trezentos), alguns já publicados em antologias poéticas. Cada texto terminado é como uma obra concluída e não fazemos ideia do alcance que um livro pode ter. Lembro-me, certa vez, de estar de visita ao Brasil e alguém que eu não conhecia dizer-me que ao ler Salema, compreendeu a diferença da religião que ela praticava (a mesma da personagem) e o encontro transformador com o seu Salvador.

Portanto, levar a mensagem preciosa do evangelho usando a escrita, seja na forma de ficção, artigos, prosa ou poesia, é como atirar uma pedra num rio, onde pequenas ondas vão se formando até que alcance pessoas e lugares que nem sequer podemos imaginar.

O processo de escrever é desafiador, mas também é um privilégio. Criar personagens e vê-los, à medida que vamos construindo o enredo, a “formar asas” e a conduzir o processo narrativo, é uma experiência única. É como se fôssemos leitores das nossas próprias personagens enquanto escrevemos, ao mesmo tempo que nos mantemos fiéis ao propósito original da escrita.

Sobre continuar a escrever, este tem sido um desejo já há algum tempo. Imagino que, como todo o escritor, há textos começados a que não dei continuidade, há palavras soltas de um poema inacabado, há um ir e vir de ideias que ficam por contar. Todavia, neste momento, devido a ter sido confrontada com uma questão de saúde e com a constatação real de que a vida é um sopro, estou a começar um projeto que envolve outra vez transformar em escrita criativa, as emoções humanas, as fragilidades e os passos indecisos, em esperança e renovação.

Um dia, o Senhor disse ao profeta Habacuque: “Escreve a visão e torna-a bem legível sobre tábuas, para que a possa ler quem passa correndo” (Habacuque 2:2) e de certa forma é este o trabalho do escritor. Escrever a visão, em letras visíveis e que possam ser lidas, compreendidas e possam transformar de tal forma que a esperança da mensagem encontre muitos corações.

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